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SOBRE BODES, SEGREDOS E MAÇONARIA(2ª PARTE): Quando saber guardar segredo incomoda.



2. Quando saber guardar segredo incomoda. 

Passemos, então, a falar sobre o nobre compromisso do Segredo. A Maçonaria, como uma sociedade iniciática, estabelece que seus membros obedeçam, firmemente, ao comportamento de discrição e cuidado com os conhecimentos que são revelados à medida que o iniciado é elevado mais próximo à Luz, os quais não devem ser objeto do olhar  profano. É evidente que esta é uma condição historicamente comum entre sociedades iniciáticas, como se pode verificar nas chamadas culturas clássicas que afloraram no Mundo Antigo. 

Mas as relações das fraternidades iniciáticas, como a Maçonaria, com o restante da sociedade, nem sempre ocorreram de modo harmonioso, sendo estas, muitas  vezes, alvos de temerárias perseguições. Antes mesmo da Fraternidade dos Filhos da Viúva, podemos ver, como exemplo dessa desarmonia, a sistemática perseguição imputada à Ordem dos Pobres Cavaleiros de Cristo e do Templo de Salomão, conhecida como Cavaleiros Templários. 

Fundada em no ano de 1.118 da EV, por Hugo de Payens, com o apoio de mais  8 cavaleiros, em Jerusalém, no Monte onde existira o Templo de Salomão e onde se ergue a atual Mesquita de Al-Aqsa, a Ordem dos Cavaleiros Templários atuou durante cerca de  dois séculos, com o propósito original de proteger os cristãos que voltaram a fazer a  Peregrinação à Cidade Santa, após a sua conquista pelos cristãos contra os povos  muçulmanos. 

É importante denotar que a Ord dos Cav Temp assume os princípios  organizativos de uma fraternidade iniciática, aos modos das culturas afloradas no Oriente,  onde o conhecimento compartimentado em graus e protegido pelo compromisso do  Segredo tornou-se uma de suas mais valiosas marcas, mas também o principal alvo da  perseguição que sofreu. 

O processo de extinção da Ord dos Cav Temp é engendrado pelo monarca  francês, o rei Felipe IV, no século XIV, que usou de sua influência sobre o Pontífice  Católico Clemente V, para consolidar um plano de acabar com os Templários e confiscar  seus bens e recursos. O principal argumento para isso foi a acusação (mentirosa) de  heresia: a adoração de um ídolo pagão relacionado com o demônio, ao qual deram o nome  de Baphomet, que seria uma corruptela da junção das palavras “bode” e “mahomet”, numa  clara depreciação aos muçulmanos, tidos como inimigos dos cristãos. 

E é justamente neste ponto que vemos surgir materialmente, as relações pejorativas construídas entre a figura do bode e a prática do segredo. Tal questão nos é  apresentada pelo autor maçom Irm Rizzardo da Camino, em sua obra “Dicionário  Maçônico”, quando discorre sobre a figura de Baphomet, aponta a ideia da descrição do  ídolo como sendo o “Bode de Sabbat”, tratando-se de representar o Absoluto como um  animal grotesco, provocando a desfiguração e coisificação de questões profundamente  complexas. 

O que se vê então, com a confusão perpetrada pelos processos sumários contra a  Ord dos Cav Temp, é a manipulação da história e das notícias de forma a criar uma  situação que, na verdade, nunca tinha existido, vitimando a fraternidade por  responsabilidades e culpas que nunca foram suas. Como resultado, foi alimentada no  imaginário do povo profano a ideia de que a figura demoníaca poderia ser facilmente  representada por algo com a aparência próxima à de um bode ou do “bode preto”. 

Historicamente, conforme Camino nos apresenta, não foram provadas as  acusações de heresia ou idolatria a um deus pagão, ou ao próprio demônio, com aparência  de bode, por parte dos Cavaleiros Templários, que pagaram duramente por conta de uma  notícia falsa: tiveram não somente a ordem dissolvida, mas a vida de muitos integrantes  ceifada de forma virulenta nas chamas da fogueira acesa em praça pública. 

Embora a história tenha comprovado a inocência da Ord dos Cav Temp e a  verdadeira responsabilidade ter sido atribuída à ganância do rei Felipe IV e à intolerância do Papa Clemente V, no imaginário coletivo, ficou marcada a ideia e a acusação de que  fraternidades iniciáticas que têm alguma relação com os Templários, teriam herdado  também a prática de adoração ao “sinistro” ou ao próprio demônio, sendo ela  materializada na veneração ao “Bode Preto” em seus rituais. 

Coube, então, um pesado fardo histórico sobre a Fraternidade dos Filhos da Viúva,  uma vez que, conforme relatos, na fuga contra a perseguição de Felipe IV de França e da  Igreja, muitos Cavaleiros Templários, utilizando de seus conhecimentos adquiridos nos  tempos de serviço no Oriente, conseguiram se misturar entre as Guildas de Pedreiros (os  primeiros maçons) e assim conseguir sobreviver aos seus algozes, tendo isso acontecido  na Inglaterra e na Escócia. 

Podemos afirmar, então, que esse seria o elo entre as acusações de heresia sofridas  pela Ord dos Cav Temp e aquelas dirigidas à Sublime Ordem da Maçonaria, tendo  como figura alegórica a prática imprópria de adoração a um bode como forma de  representação do anjo caído. 

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