SOBRE BODES, SEGREDOS E
MAÇONARIA
Por, João Andrade
M∴
M∴
Alguns dos grandes elementos
folclóricos que vivem no imaginário do mundo profano a respeito da Sublime
Ordem da Maçonaria, envolvem a lógica do Segredo e a figura do Bode. A tal
ponto essas figuras alimentam imaginário das pessoas que, ao longo dos séculos,
as mais estranhas estórias e acusações foram forjadas, algumas pela nítida
ingenuidade e superstição, mas outras carregadas pelo preconceito e ódios tanto
políticos quanto religiosos alimentados, principalmente, como veremos, pela
Igreja Católica pois não detinha nenhuma influência ou poder sobre a
Ordem.
Neste breve ensaio buscaremos
refletir, justamente, sobre esses dois elementos da vida maçônica e como eles
se relacionam com diversos eventos históricos e suas repercussões em nossa
sociedade moderna.
1. O Bode: um portador de
segredos...
Uma história controversa de que
um animal pode guardar um segredo, está no esteio de um interessante relato
sobre um antigo costume que ainda seria utilizado de forma muito popular pelo
povo comum judeu, nos tempos de Cristo: o ato de confessar seus pecados aos
ouvidos de um bode, podendo, assim, aliviar-se de suas culpas.
O autor maçônico, Irm∴
José Castelanni nos relata que:
Por volta do III ano d.C., vários Apóstolos saíram para o mundo a
fim de divulgar o cristianismo. Alguns foram para o lado judaico da Palestina.
E lá, curiosamente, notaram que era comum ver um judeu falando ao ouvido de um
bode, animal muito comum naquela região. Procurando saber o porquê daquele
monólogo, foi difícil obter resposta. Ninguém dava informação, com isso
aumentava ainda mais a curiosidade dos representantes cristãos, em relação
àquele fato. Até que Paulo, o Apóstolo, conversando com um Rabino de uma
aldeia, foi informado, de que aquele ritual era usado para expiação dos erros. Fazia
parte da cultura daquele povo contar a alguém da sua confiança, quando cometia,
mesmo escondido, as suas faltas; ficaria mais aliviado junto à sua consciência,
pois estaria dividindo o sentimento ou problema.
“Mas por que bode?” Quis saber Paulo.
“É porque o bode é seu confidente. Como o bode não fala, o confesso
fica ainda mais seguro de que seus segredos serão mantidos”, respondeu-lhe o
Rabino.
O autor maçônico, Irm∴
Raymundo D’Elia Junior, em sua obra “Maçonaria: 100 instruções de Aprediz”,
corrobora o relato coletado pelo Irm∴ José
Castelani, apontando ainda que a experiência
vivida pelo Apóstolo Paulo, serviu de base para que
a Igreja Católica pudesse
incluir em sua ritualística a instituição do Confessionário, que
somente teria efetividade com a garantia do voto de silencio do
confessor, ou seja, o penhor do segredo sobre tudo que
for dito em confissão.
Necessariamente, não há
comprovações históricas que possam dar validade aos relatos sobre a experiencia
do Apóstolo Paulo, em testemunhar as confissões ao um bode, e que esta tenha
influenciado decisivamente na Igreja Católica Apostólica Romana pela
instituição do Sacramente da Confissão ou Religação, cujas origens e motivações
de uso pela Igreja possui, em si, suas próprias controvérsias. Mas podemos
encontrar uma passagem bastante interessante no Livro de Levíticos, o terceiro
de cinco livros que compõem o Pentateuco do Antigo Testamento na Bíblia Cristã
e representa o Torá para o povo Judeu.
É justamente no capítulo 16 do
Livro de Levíticos que vemos ser instituída pelo próprio Javé (o Grande
Arquiteto do Universo) a figura do bode expiatório, em
cujas responsabilidades estava a de ouvir as confissões das pessoas, nesse caso ritualístico as
confissões de Aarão, sumo sacerdote do Tabernáculo, como se vê:
Depois de fazer a expiação do
santuário, da tenda de reunião e do altar, Aarão mandará trazer o bode vivo.
Colocará as duas mãos sobre a cabeça do bode e confessará sobre ele todas as
culpas, transgressões e pecados dos filhos de Israel. Depois de colocar tudo
sobre a cabeça dodo bode mandará o animal para o deserto, conduzido por um
homem para isso preparado. Assim, o bode levará sobre si, para uma região deserta,
todas as culpas deles. (Lev∴ 16, 20-22)
Conforme o relato apresentado
acima, podemos inferir que, muito provavelmente, a experiencia vivida por Paulo
Apóstolo, tenha realmente acontecido ou, ao menos, seja verdade que entre os
judeus houvesse se popularizado a pratica da confissão auricular a um
bode, uma vez que este manteria perfeitamente em segredo tudo o que lhe
fosse revelado, e não apenas por uma conveniência, mas por indicação
expressa do próprio Pai Criador.
O bode, então, passa à tradição
da cultura judaico-cristã com uma criatura capaz de portar um segredo, sem dele
fazer alarde, sem dele escapar nenhum detalhe, tornando se uma espécie de
referência para fiel confessor. Para além disso vemos a consolidação da
alegoria do bode expiatório, capaz de suportar uma culpa que não é sua e, mesmo
assim, não murmurar.


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